SC Joias Finas

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quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

O Livro da Solidão

Os senhores todos conhecem a pergunta famosa universalmente repetida: "Que livro escolheria para levar consigo, se tivesse de partir para uma ilha deserta...?"
Vêm os que acreditam em exemplos célebres e dizem naturalmente: "Uma história de Napoleão." Mas uma ilha deserta nem sempre é um exílio... Pode ser um passatempo...
Os que nunca tiveram tempo para fazer leituras grandes, pensam em obras de muitos volumes. É certo que numa ilha deserta é preciso encher o tempo... E lembram-se das Vidas de Plutarco, dos Ensaios de Montaigne, ou, se são mais cientistas que filósofos, da obra completa de Pasteur. Se são uma boa mescla de vida e sonho, pensam em toda a produção de Goethe, de Dostoievski, de Ibsen. Ou na Bíblia. Ou nas Mil e uma noites.
Pois eu creio que todos esses livros, embora esplêndidos, acabariam fatigando; e, se Deus me concedesse a mercê de morar numa ilha deserta (deserta, mas com relativo conforto, está claro — poltronas, chá, luz elétrica, ar condicionado) o que levava comigo era um Dicionário. Dicionário de qualquer língua, até com algumas folhas soltas; mas um Dicionário.
Não sei se muita gente haverá reparado nisso — mas o Dicionário é um dos livros mais poéticos, se não mesmo o mais poético dos livros. O Dicionário tem dentro de si o Universo completo.
Logo que uma noção humana toma forma de palavra — que é o que dá existência ás noções — vai habitar o Dicionário. As noções velhas vão ficando, com seus sestros de gente antiga, suas rugas, seus vestidos fora de moda; as noções novas vão chegando, com suas petulâncias, seus arrebiques, às vezes, sua rusticidade, sua grosseria. E tudo se vai arrumando direitinho, não pela ordem de chegada, como os candidatos a lugares nos ônibus, mas pela ordem alfabética, como nas listas de pessoas importantes, quando não se quer magoar ninguém...
O Dicionário é o mais democrático dos livros. Muito recomendável, portanto, na atualidade. Ali, o que governa é a disciplina das letras. Barão vem antes de conde, conde antes de duque, duque antes de rei. Sem falar que antes do rei também está o presidente.
O Dicionário responde a todas as curiosidades, e tem caminhos para todas as filosofias. Vemos as famílias de palavras, longas, acomodadas na sua semelhança, — e de repente os vizinhos tão diversos! Nem sempre elegantes, nem sempre decentes, — mas obedecendo á lei das letras, cabalística como a dos números...
O Dicionário explica a alma dos vocábulos: a sua hereditariedade e as suas mutações.
E as surpresas de palavras que nunca se tinham visto nem ouvido! Raridades, horrores, maravilhas...
Tudo isto num dicionário barato — porque os outros têm exemplos, frases que se podem decorar, para empregar nos artigos ou nas conversas eruditas, e assombrar os ouvintes e os leitores...
A minha pena é que não ensinem as crianças a amar o Dicionário. Ele contém todos os gêneros literários, pois cada palavra tem seu halo e seu destino — umas vão para aventuras, outras para viagens, outras para novelas, outras para poesia, umas para a história, outras para o teatro.
E como o bom uso das palavras e o bom uso do pensamento são uma coisa só e a mesma coisa, conhecer o sentido de cada uma é conduzir-se entre claridades, é construir mundos tendo como laboratório o Dicionário, onde jazem, catalogados, todos os necessários elementos.
Eu levaria o Dicionário para a ilha deserta. O tempo passaria docemente, enquanto eu passeasse por entre nomes conhecidos e desconhecidos, nomes, sementes e pensamentos e sementes das flores de retórica.
Poderia louvar melhor os amigos, e melhor perdoar os inimigos, porque o mecanismo da minha linguagem estaria mais ajustado nas suas molas complicadíssimas. E sobretudo, sabendo que germes pode conter uma palavra, cultivaria o silêncio, privilégio dos deuses, e ventura suprema dos homens.

Cecília Meireles

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

O açougueiro

Era dia de faxina na casa de Zulmira quando o toque insistente do telefone a fez descer do alto da escada onde limpava uma prateleira.
— Desculpe-me a ousadia... — foi o que logo ouviu de uma voz galante. — Há tempos venho ensaiando para te ligar...
O coração começa a bater descompassado. Quem diria? Alguém a notara por aí! E pensar que o marido nem chegou a perceber que pintara o cabelo de vermelho...
— Eu quero marcar um encontro com você...
Ao ouvir a proposta, Zulmira enrubesceu. O coração parecia querer pular fora de seu peito. E agora? O que dizer?
— E então? — insistiu a voz.
— Eu... eu... não posso... — gaguejou. Quem seria este homem? Aquele vizinho novo que vivia às voltas com um poodle? Não! Ele parecia ter um jeito meio afetado. Deus meu!, seria o Odorico? O açougueiro? Bem que percebera que ultimamente ele sempre lhe escolhia a melhor peça...
— Eu sei que você é uma mulher casada... eu entendo... mas é apenas um encontro...
— Não, eu não posso! — repetiu com firmeza. Afinal de contas tinha lá os seus princípios, e ainda por cima dois filhos adolescentes. E se fosse mesmo o Odorico? Ah! O Odorico sim valia a pena. Um homem que mexia com a carne daquele jeito, o que é que não faria com uma mulher?
— Ninguém ficará sabendo... eu prometo! — continuou ele, persuasivo. – E tenho certeza que será uma noite inesquecível... Começaremos com um jantar à beira-mar... Depois iremos navegar durante a madrugada...
Zulmira deixava-se levar pela imaginação quando foi surpreendida por uma pergunta:
— Você gosta de ostras?
— Ostras? — repetiu, sem saber o que responder. Nunca comera ostras em toda sua vida, mas lera numa revista da cabeleireira que ostras eram afrodisíacas.
— Se você não gosta eu...
— Não! Imagine... gosto sim! — exclamou.
— Eu posso esperá-la amanhã à noite? — perguntou–lhe o homem. — Estou bastante ansioso para encontrá-la.
E agora? Deixaria a vida passar sem lutar por algumas boas lembranças? Este pensamento fora suficiente para convencê-la.
— Sim! — respondeu decidida. — Onde podemos nos encontrar?
— Faz o seguinte Telma: às 8:30 você me liga...
— Ei! Peraí! Meu nome não é Telma!
— Não?!! — exclamou o homem, aturdido.
— Não! — confirmou Zulmira, com a voz zangada.
— Mil perdões! — disse ele e desligou envergonhado num baque rápido.
E sem mais nada por esperar daquela tarde, Zulmira continuou a espanar a prateleira, pensando, de quando em quando, num longo suspiro, que a vida é assim mesmo

Adriana Costalunga

A rainha em seu trono

Mamãe Dora abriu os olhos, atenta. Sentada na velha cadeira de braço, ocupava o centro do salão, onde, naquela tarde, empregados mudavam os móveis e levavam pequenos objetos, vasos, cinzeiros, enfeites, de um lado para outro. Não os conhecia; não eram seus criados, talvez trabalhassem para seu filho Hugo, homem poderoso, rico, e, portanto, cheio de empregados à sua disposição.

Mas aquele era o seu salão. Onde passara bons momentos em sua vida. O que faziam aqueles homens ali? E mais: o que queriam, tirando as coisas de lugar, levando embora os móveis, deixando aquele vazio frio e cheio de ecos? Um absurdo! O que pensavam que ela era, algum traste sem valor?

Encheu o peito, pronta para acabar com aquela falta de respeito. Tentou falar, mas a voz não saiu. Insistiu, sem sucesso. Ao fundo do salão, surgiu Clara, sua filha mais nova, linda; aproximou-se dela, mais e mais, seu corpo e seu rosto, as mãos estendidas num carinho, ocupando toda a visão de Mamãe Dora, que sentiu lágrimas lhe queimarem os olhos.

Clara pegou a foto sobre o chão e contemplou o retrato da mãe, sentada na velha cadeira de braços. Sentiu saudades. Aquele salão jamais seria o mesmo sem Mamãe Dora.

Alexandre Gazineo

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

A fofocaria

Conversando com um amigo, lá de Limoeiro, sobre o interesse na abertura de um novo segmento de negócios na cidade, sugeriu-me um que acreditava ser bastante promissor e original: uma fofocaria!
Nunca havia pensado nisso... Abrir uma fofocaria no centro de Fortaleza, talvez fosse mesmo um bom investimento. Digo no centro, mas bem sei que há espaço para rápida expansão de franquias em shoppings, igrejas, clubes, lans e nas academias... de ginástica, obviamente.
Receoso, decidi consultar o Raimundo de Menezes, também cronista, profundo conhecedor da gente e dos costumes da cidade, para saber o que ele achava do empreendimento. Ele, arranhando o rosto redondo com certa ansiedade, disse-me que a fofoca era uma das coisas que o tempo não levou, e que se eu quisesse consultar um profissional gabaritado a respeito, me indicaria o João da Silva Tavares, segundo ele, o primeiro mexeriqueiro de Fortaleza! Fiquei impressionado: este senhor, de tão longevo, deveria ser um hors-concours da fofoca.
Até então, eu sabia que o primeiro fofoqueiro do mundo havia sido o Adão, que, aliás, era cearense, e que tinha se arribado para as bandas do Paraíso em busca de fazer dinheiro, porque todos sabem que aqui no Ceará, não tem disso não, não tem disso não...
Tavares era mestre em Gramática Latina (um letrado, felizmente) e era temido por quem tivesse rabo de palha. Conforme o Raimundo contou, se a pessoa lhe caísse em desagrado, mesmo que esta não tivesse defeitos, ele os inventava, e o fazia com tal excelência que, rapidamente, a intriga era distribuída em forma de picuinhas e difamações. O seu exercício inventivo e belicoso de “mexeriqueiro, enredador e perturbador público” era até reconhecido oficialmente pela Câmara de Vereadores, vítima-mor da língua espinhenta, embora, por vezes, é claro, com muita justiça...
O mexeriqueiro nos recebeu todo orgulhoso. Veio logo distribuindo algumas crias novas e, interessado no negócio, passou-me algumas dicas que eu tratei de tomar nota com atenção:

— Óquei, óquei, Raymundo, você está certo, existe mesmo uma grande oferta e procura de nosso produto. A fofoca, nesse mundo globalizado, tem uma velocidade de propagação imensa e, para se potencializar esse efeito, é fácil, basta apenas anunciar ao intrigante: “Só falei porque é para você, mas é segredo”. É batata! Pode contar que já, já, sua fofoca volta até você.

Disse-nos mais: que o verdadeiro artesão da fofoca era tão desprendido que, além de não assinar a obra, não confessava sua autoria nem sob tortura! Era sempre assim: me disseram, me falaram, alguém contou... Estava ele até chateado com o injusto estigma que sua profissão lhe conferia. Acreditava ser mais apropriado, ao invés de fofoca, falar-se em “comunicação social”.
Sobre o imóvel da fofocaria, insistia que as suas paredes tinham que — para facilitar o insight visual — ser de vidro; mas o telhado, ao contrário, nunca!
Aconselhou-me montar o negócio diante de uma praça, para facilitar o fluxo de profissionais, e que poderíamos, inclusive, vender uns cafezinhos, pãezinhos, doces, coisas leves como numa casa de merenda, pois o bom ficcionista (assim ele também se denominava) não pode perder muito tempo mastigando, bem sabido que seu instrumento de trabalho é a boca.

— Mas não podemos querer que todos venham à fofocaria. Pelo menos, não ao mesmo tempo, pois se todos estiverem lá, não teremos de quem falar, não é verdade? O ausente é também um grande colaborador em nosso negócio!

Sugeriu a criação de um menu de fofocas onde as pessoas escolheriam e encomendariam a produção. Dentre os tipos de fofoca, teríamos a fofoca-alcunha, um produto mais caro, pois além da fofoca em si, a vítima também ganharia um apelido que o perseguiria pelo resto da vida.
Eu já estava entusiasmado com tantas idéias quando, de repente, percebi sua face transformar-se: acima do olhar meio de banda, a testa franzida, enquanto cofiava a barba mal-feita. Passou a perguntar-me o que eu fazia, onde morava, meu estado civil... Nem sei por que, mas senti um frio na espinha e a orelha a esquentar. Olhei para o Raimundo que, com os ombros encolhidos e os cabelos em pé por sobre o rosto corado, pôs-se a assobiar. Respondi ao curioso:

— Sinto muito, Tavares, mas a editora do jornal me disse que o texto da crônica não poderia mais passar de cinqüenta linhas... Infelizmente, acabou... Uuuufa!

Raymundo Netto

A Culpa é de Maria Adelaide

A feiúra é genética, passa de pai para filho. E, assim como a beleza que colore e encanta, o ato de ser feio faz nascer sentimentos como a compaixão e, às vezes, até mesmo a ternura abre os braços e enche de candura os lábios e o corpo do feio. A atração quando isto acontece é inevitável, pois a beleza não tem mesmo um quê de fundamental. Ela é como um adorno e, diante de cada par de olhos, se diferencia e muda de foco e sentido.
Falei tudo isto para começar a narrar a vida cheia de princípios e fantasias de Maria Adelaide,uma costureira do subúrbio carioca. Mulher jeitosa,habilidosa que sabia transformar o feio no belo. Trapos em lindas colchas de fuxico.
O tempo gasta e desgasta até mesmo o que o homem acredita ser imortal e Maria Adelaide envelheceu aos olhos da vida. Tudo é mesmo fungível, somente as palavras não são consumidas pelo determinado palpitar das horas. As rugas permearam seus olhos e rosto de uma beleza indizível, incomum e extraordinária. Seus lábios se contraíam de uma maneira especial quando sorria, como confeites e serpentinas nas noites animadas e coloridas de carnaval.
Maria Adelaide casou com Roberval, um homem alto, muito magro e dono de um sorriso largo e sensual. Quer dizer, a sensualidade fica por conta do olhar apaixonado da sonhadora e romântica esposa que invadia as gargalhadas do companheiro com gestos de afago e carinho. Uma intimidade que repousava no silêncio da alcova quando iam dormir tendo apenas, como testemunhas, a luz das estrelas e um pequeno e frágil candeeiro. A vida na roça era simples, mas recheada de poesia e devaneios.
Roberval gostava de repousar o cansaço da lavoura nos seios fartos de Maria Adelaide, mas como o tempo pode dar um ponto final a tudo, até na mais arrebatora paixão que não era o caso do casal, o casamento um dia acabou. Roberval disse que ia comprar um saco de milho e nunca mais voltou. No rosto de Maria Adelaide uma lágrima se cristalizou e ali nasceu um lindo sinal como se fosse de nascença. Um charme que a tornou ainda mais bela. Sua beleza foi sendo conquistada dia-a-dia como tudo na vida, inclusive os mais valiosos e preciosos tesouros.
Os filhos cresceram, as costuras diminuíram devido à vista cansada e Maria Adelaide passou a sorrir e a ver na vida, no nascer de cada dia, a admirável oportunidade de poder renascer diariamente. Encher o sorriso de dentes e ternura e retribuir, ao mundo, as ocasiões favoráveis para crescer de dentro para fora, como uma rosa que floresce sem ninguém dizer uma só palavra para despertá-la de seu encantamento natural. Assim era Maria Adelaide, uma mulher que descobriu que ser bela nada tem a ver com traços perfeitos, assim como suas colchas de retalhos contorcidos e irregulares que se transformavam, com o ofício de costureira, em belas obras de arte.
Os filhos, Pedro e Joana, herdaram da mãe uma feiúra peculiar, mas aprenderam detalhes importantes que fazem a diferença na arte que o homem um dia denominou de vida...A obstinação, o espírito de sacrifício, de tornar sagrado até mesmo o que parece torpe, vil e repelente. È superando obstáculos físicos e, muitas vezes, imaginários que o homem consegue deixar uma marca registrada na sua passagem pela vida, porque as feridas só serão curadas pelos que forem capazes de enxergar a beleza no feio, a felicidade nos olhos da tristeza...E o amor entre a despedida da lua e das estrelas do céu, no encontro quase casual com o sol que presenteia os seres humanos com a ocasião favorável para eles fazerem despertar o que têm de melhor dentro de si, dos corações...Como canções que ficarão para sempre entretendo os espíritos com a mais doce harmonia...

Fabiana Barros

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

Carta aos Mortos

Amigos, nada mudou em essência.
Os salários mal dão para os gastos, as guerras não terminaram e há vírus novos e terríveis,embora o avanço da medicina.
Volta e meia um vizinho tomba morto por questão de amor.
Há filmes interessantes, é verdade, e como sempre, mulheres portentosas nos seduzem com suas bocas e pernas, mas em matéria de amor não inventamos nenhuma posição nova.
Alguns cosmonautas ficam no espaço seis meses ou mais, testando a engrenagem e a solidão.
Em cada olimpíada há recordes previstos e nos países, avanços e recuos sociais. Mas nenhum pássaro mudou seu canto com a modernidade.

Reencenamos as mesmas tragédias gregas, relemos o Quixote, e a primavera chega pontualmente cada ano.

Alguns hábitos, rios e florestas se perderam. Ninguém mais coloca cadeiras na calçada ou toma a fresca da tarde, mas temos máquinas velocíssimas que nos dispensam de pensar.

Sobre o desaparecimento dos dinossauros e a formação das galáxias não avançamos nada.
Roupas vão e voltam com as modas. Governos fortes caem, outros se levantam, países se dividem e as formigas e abelhas continuam fiéis ao seu trabalho.

Nada mudou em essência.

Cantamos parabéns nas festas, discutimos futebol na esquina morremos em estúpidos desastres e volta e meia um de nós olha o céu quando estrelado com o mesmo pasmo das cavernas.
E cada geração, insolente, continua a achar que vive no ápice da história.

Affonso Romano de Sant'Anna

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Mulheres

"Certo dia parei para observar as mulheres e só pude concluir uma coisa: elas não são humanas. São espiãs. Espiãs de Deus, disfarçadas entre nós.
Pare para refletir sobre o sexto-sentido. Alguém duvida de que ele exista?
E como explicar que ela saiba exatamente qual mulher, entre as presentes, em uma reunião, seja aquela que dá em cima de você?
E quando ela antecipa que alguém tem algo contra você, que alguém está ficando doente ou que você quer terminar o relacionamento?
E quando ela diz que vai fazer frio e manda você levar um casaco? Rio de Janeiro, 40 graus, você vai pegar um avião pra São Paulo. Só meia-hora de vôo. Ela fala pra você levar um casaco, porque "vai fazer frio". Você não leva. O que acontece?
O avião fica preso no tráfego, em terra, por quase duas horas, depois que você já entrou, antes de decolar. O ar condicionado chega a pingar gelo de tanto frio que faz lá dentro!
"Leve um sapato extra na mala, querido.
Vai que você pisa numa poça..."
Se você não levar o "sapato extra", meu amigo, leve dinheiro extra para comprar outro. Pois o seu estará, sem dúvida, molhado...
O sexto-sentido não faz sentido!
É a comunicação direta com Deus!
Assim é muito fácil...
As mulheres são mães!
E preparam, literalmente, gente dentro de si.
Será que Deus confiaria tamanha responsabilidade a um reles mortal?
E não satisfeitas em ensinar a vida elas insistem em ensinar a vivê-la, de forma íntegra, oferecendo amor incondicional e disponibilidade integral.
Fala-se em "praga de mãe", "amor de mãe", "coração de mãe"...
Tudo isso é meio mágico...
Talvez Ele tenha instalado o dispositivo "coração de mãe" nos "anjos da guarda" de Seus filhos (que, aliás, foram criados à Sua imagem e semelhança).
As mulheres choram. Ou vazam? Ou extravazam?
Homens também choram, mas é um choro diferente. As lágrimas das mulheres têm um não sei quê que não quer chorar, um não sei quê de fragilidade, um não sei quê de amor, um não sei quê de tempero divino, que tem um efeito devastador sobre os homens...
É choro feminino. É choro de mulher...
Já viram como as mulheres conversam com os olhos?
Elas conseguem pedir uma à outra para mudar de assunto com apenas um olhar. Elas fazem um comentário sarcástico com outro olhar. E apontam uma terceira pessoa com outro olhar.
Quantos tipos de olhar existem?

Luis Fernando Veríssimo

Soberania

Naquele dia, no meio do jantar, eu contei que tentara pegar na bunda do vento — mas o rabo do vento escorregava muito e eu não consegui pegar. Eu teria sete anos. A mãe fez um sorriso carinhoso para mim e não disse nada. Meus irmãos deram gaitadas me gozando. O pai ficou preocupado e disse que eu tivera um vareio da imaginação.
Mas que esses vareios acabariam com os estudos. E me mandou estudar em livros. Eu vim. E logo li alguns tomos havidos na biblioteca do Colégio.
E dei de estudar pra frente. Aprendi a teoria das idéias e da razão pura. Especulei filósofos e até cheguei aos eruditos. Aos homens de grande saber. Achei que os eruditos nas suas altas abstrações se esqueciam das coisas simples da terra. Foi aí que encontrei Einstein (ele mesmo — o Alberto Einstein). Que me ensinou esta frase:
A imaginação é mais importante do que o saber.
Fiquei alcandorado! E fiz uma brincadeira. Botei um pouco de inocência na erudição. Deu certo. Meu olho começou a ver de novo as pobres coisas do chão mijadas de orvalho. E vi as borboletas. E meditei sobre as borboletas. Vi que elas dominam o mais leve sem precisar de ter motor nenhum no corpo. (Essa engenharia de Deus!) E vi que elas podem pousar nas flores e nas pedras sem magoar as próprias asas. E vi que o homem não tem soberania nem pra ser um bentevi.

Manoel de Barros

O Catador

Um homem catava pregos no chão.
Sempre os encontrava deitados de comprido, ou de lado, ou de joelhos no chão.
Nunca de ponta.
Assim eles não furam mais - o homem pensava.

Eles não exercem mais a função de pregar.
São patrimônios inúteis da humanidade.
Ganharam o privilégio do abandono.
O homem passava o dia inteiro nessa função de catar pregos enferrujados.

Acho que essa tarefa lhe dava algum estado.
Estado de pessoas que se enfeitam a trapos.
Catar coisas inúteis garante a soberania do Ser.
Garante a soberania de Ser mais do que Ter.

Manoel de Barros

Dona Doida

Uma vez, quando eu era menina, choveu grosso
com trovoadas e clarões, exatamente como chove agora.
Quando se pôde abrir as janelas,
as poças tremiam com os últimos pingos.

Minha mãe, como quem sabe que vai escrever um poema,
decidiu inspirada: chuchu novinho, angu, molho de ovos.
Fui buscar os chuchus e estou voltando agora,
trinta anos depois. Não encontrei minha mãe.

A mulher que me abriu a porta, riu de dona tão velha,
com sombrinha infantil e coxas à mostra.
Meus filhos me repudiaram envergonhados,
meu marido ficou triste até a morte,

eu fiquei doida no encalço.
Só melhoro quando chove.

Adélia Prado

domingo, 16 de janeiro de 2011

Versos Íntimos

Vês! Ninguém assistiu ao formidável
Enterro de tua última quimera.
Somente a Ingratidão - esta pantera -
Foi tua companheira inseparável!

Acostuma-te à lama que te espera!
O Homem, que, nesta terra miserável,
Mora, entre feras, sente inevitável
Necessidade de também ser fera.

Toma um fósforo. Acende teu cigarro!
O beijo, amigo, é a véspera do escarro,
A mão que afaga é a mesma que apedreja.

Se a alguém causa inda pena a tua chaga,
Apedreja essa mão vil que te afaga,
Escarra nessa boca que te beija!

Augusto dos Anjos

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

Fábula dos Dois Leões

Diz que eram dois leões que fugiram do Jardim Zoológico. Na hora da fuga cada um tomou um rumo, para despistar os perseguidores. Um dos leões foi para as matas da Tijuca e outro foi para o centro da cidade. Procuraram os leões de todo jeito mas ninguém encontrou. Tinham sumido, que nem o leite.
Vai daí, depois de uma semana, para surpresa geral, o leão que voltou foi justamente o que fugira para as matas da Tijuca. Voltou magro, faminto e alquebrado. Foi preciso pedir a um deputado do PTB que arranjasse vaga para ele no Jardim Zoológico outra vez, porque ninguém via vantagem em reintegrar um leão tão carcomido assim. E, como deputado do PTB arranja sempre colocação para quem não interessa colocar, o leão foi reconduzido à sua jaula.
Passaram-se oito meses e ninguém mais se lembrava do leão que fugira para o centro da cidade quando, lá um dia, o bruto foi recapturado. Voltou para o Jardim Zoológico gordo, sadio, vendendo saúde. Apresentava aquele ar próspero do Augusto Frederico Schmidt que, para certas coisas, também é leão.
Mal ficaram juntos de novo, o leão que fugira para as florestas da Tijuca disse pro coleguinha: — Puxa, rapaz, como é que você conseguiu ficar na cidade esse tempo todo e ainda voltar com essa saúde? Eu, que fugi para as matas da Tijuca, tive que pedir arreglo, porque quase não encontrava o que comer, como é então que você... vá, diz como foi.
O outro leão então explicou: — Eu meti os peitos e fui me esconder numa repartição pública. Cada dia eu comia um funcionário e ninguém dava por falta dele.
— E por que voltou pra cá? Tinham acabado os funcionários?
— Nada disso. O que não acaba no Brasil é funcionário público. É que eu cometi um erro gravíssimo. Comi o diretor, idem um chefe de seção, funcionários diversos, ninguém dava por falta. No dia em que eu comi o cara que servia o cafezinho... me apanharam.

Stanislaw Ponte Preta (Sérgio Porto)

Sonetos

Entre as partes do todo a melhor parte
Foi a parte, em que Deus pôs o amor todo
Se na parte do peito o quis pôr todo,
O peito foi do todo a melhor parte

Parta-se pois de Deus o corpo em parte,
Que a parte, em que Deus fiou o amor todo
Por mais partes, que façam deste todo,
De todo fica intacta essa só parte.

O peito já foi parte entre as do todo,
Que tudo mais rasgaram parte a parte;
Hoje partem-se as partes deste todo:

Sem que do peito todo rasguem parte,
Que lá quis dar por partes o amor todo,
E agora o quis dar todo nesta parte.

Gregório de Matos

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

Ontem ao Luar

Ontem ao luar, nós dois em plena solidão Tu me perguntaste o que era a dor de uma paixão. Nada respondi, calmo assim fiquei, mas fitando o azul do azul do céu a lua azul eu te mostrei.

Mostrando a ti, dos olhos meus correr senti uma nívea lágrima e assim te respondi.Fiquei a sorrir por ter o prazer de ver a lágrima dos olhos a sofrer.

A dor da paixão não tem explicação.Como definir o que só sei sentir? É misterioso sofrer, para se saber o que no peito o coração não quer dizer.

Pergunta ao luar, travesso e tão tafu,de noite a chorar na onda toda azul, pergunta ao luar, do mar à canção qual o mistério que há na dor de uma paixão.

Se tu desejas saber o que é o amor e sentir o seu calor, o amaríssimo travor do seu dulçor, sobe o monte à beira mar, ao luar, ouve a onda sobre a areia lacrimar, ouve o silêncio a falar na solidão do calado coração a penar e a derramar os prantos seus, ouve o choro perenal, a dor silente universal

Que é a dor maior... que é a dor de Deus...
Que é a dor maior... que é a dor de Deus...

Catulo da Paixão Cearense

Também já fui brasileiro

Eu também já fui brasileiro
moreno como vocês.
Ponteei viola, guiei forde
e aprendi na mesa dos bares
que o nacionalismo é uma virtude.
Mas há uma hora em que os bares se fecham
e todas as virtudes se negam.

Eu também já fui poeta.
Bastava olhar para mulher,
pensava logo nas estrelas
e outros substantivos celestes.
Mas eram tantas, o céu tamanho,
minha poesia perturbou-se.

Eu também já tive meu ritmo.
Fazia isso, dizia aquilo.
E meus amigos me queriam,
meus inimigos me odiavam.
Eu irônico deslizava
satisfeito de ter meu ritmo.
Mas acabei confundindo tudo.
Hoje não deslizo mais não,
não sou irônico mais não,
não tenho ritmo mais não.

Carlos Drummond de Andrade

O mês presente

Sinto que o mês presente me assassina, as aves atuais nasceram mudas e o tempo na verdade tem domínio sobre homens nus ao sul das luas curvas.

Sinto que o mês presente me assassina, corro despido atrás de um cristo preso, cavalheiro gentil que me abomina e atrai-me ao despudor da luz esquerda ao beco de agonia onde me espreita a morte espacial que me ilumina.

Sinto que o mês presente me assassina e o temporal ladrão rouba-me as fêmeas de apóstolos marujos que me arrastam ao longo da corrente onde blasfemas gaivotas provam peixes de milagre.

Sinto que o mês presente me assassina, há luto nas rosáceas desta aurora, há sinos de ironia em cada hora (Na libra escorpiões pesam-me a sina) há panos de imprimir a dura face à força de suor, de sangue e chaga.

Sinto que o mês presente me assassina, os derradeiros astros nascem tortos e o tempo na verdade tem domínio sobre o morto que enterra os próprios mortos.

O tempo na verdade tem domínio. Amen, Amen vos digo, tem domínio e ri do que desfere verbos, dardos de falso eterno que retornam para assassinar-nos num mês assassino.

Mário Faustino

Os sons de antigamente

Conta-se na família que, quando meu pai comprou a nossa casa de Cachoeiro, esse relógio já estava na parede da sala; e que o vendedor o deixou lá, porque naquele tempo não ficava bem levar.
Hoje, meu Deus, carregam até uma lâmpada de 60 velas, até o bocal da lâmpada, e deixam aquele fio solto no ar.
Há poucas anos trouxe o relógio para minha casa de Ipanema. Mais velho do que eu, não é de admirar que ele tresande um pouco. Há uma corda para fazer andar os ponteiros, outra para fazer bater as horas. A primeira é forte, e faz o relógio se adiantar: de vez em quando alguém me chama a atenção, dizendo que o relógio está adiantado quinze ou vinte, minutos, e eu digo que é a hora de Cachoeiro. Em matéria de som vamos muito mais adiante. É comum o relógio marcar, digamos, duas e meia, e bater solenemente nove horas. "Esse relógio não diz coisa com coisa", comenta um, amigo severo. Explico que é uma pequena disfunção audiovisual.
Na verdade essa defasagem não me aborrece nada; há muito desanimei de querer as coisas deste mundo todas certinhas, e prefiro deixar que o velho relógio badale a seu bel-prazer. Sua batida e suave, como costumam ser a desses Ansonias antigos; e esse som me carrega para as noites mais antigas da infância. As vezes tenha a ilusão de ouvir, no fundo, o murmúrio distante e querido do Itapemirim.
Que outros sons me chegam da infância? Um cacarejar sonolento de galinhas numa tarde de verão; um canto de cambaxirra, o ranger e o baque de uma porteira na fazenda, um tropel de cavalos que vinha vindo e depois ia indo no fundo da noite. E o som distante dos bailes do Centro Operária, com um trombone de vara ou um pistom perdidos na madrugada.
Sim, sou um amante da música, ainda que desprezado e infeliz. Sou desafinado, desentoado, um amigo diz que tenho orelha de pau. Outro dia fiquei perplexo ouvindo uma discussão de jovens sobre um som que eu achava perfeito e eles acusavam de flutter, wow, rumble, hiss e outros males estranhos.
Meu amigo Mario Cabral dizia que queria morrer ouvindo Jesus, Alegria dos Homens; nunca soube se lhe fizeram a vontade. A mim, um lento ranger de porteira e seu baque final, como na fazenda do Frade, já me bastam. Ou então a batida desse velho relógio, que marcou a morte de meu pai e, vinte anos depois, a de minha mãe; e que eu morra às quatro e quarenta toda manhã, com ele marcando cinco e batendo onze, não faz mal; até é capaz de me cair bem.

Rubem Braga

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

A borboleta

Trazendo uma borboleta,volta Alfredo para casa.
Como é linda! é toda preta,com listas douradas na asa.
Tonta, nas mãos de criança,batendo as asas, num susto,
Quer fugir, porfia, cansa,e treme, e respira a custo.

Contente, o menino grita:“É a primeira que apanho,
Mamãe!vê como é bonita! Que cores e que tamanho!
Como voava no mato!Vou sem demora pregá-la
Por baixo do meu retrato,numa parede da sala.”

Mas a mamãe, com carinho,Lhe diz: “Que mal te fazia,
Meu filho, esse animazinho,que livre e alegre vivia?
Solta essa pobre coitada!larga-lhe as asas, Alfredo!
Vê como treme assustada... Vê como treme de medo...

Para sem pena espetá-la numa parede, menino,
É necessário matá-la: Queres ser um assassino?”
Pensa Alfredo... E, de repente,solta a borboleta... E ela
Abre as asas livremente, e foge pela janela.

“Assim, meu filho! perdeste a borboleta dourada,
Porém na estima crescente de tua mãe adorada...
Que cada um cumpra a sorte das mãos de Deus recebida:
Pois só pode dar a Morte aquele que dá a Vida.”


Olavo Bilac

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

Certezas

Não quero alguém que morra de amor por mim…
Só preciso de alguém que viva por mim, que queira estar junto de mim, me abraçando.
Não exijo que esse alguém me ame como eu o amo, quero apenas que me ame, não me importando com que intensidade.
Não tenho a pretensão de que todas as pessoas que gosto, gostem de mim…
Nem que eu faça a falta que elas me fazem, o importante pra mim é saber que eu, em algum momento, fui insubstituível… E que esse momento será inesquecível..
Só quero que meu sentimento seja valorizado. Quero sempre poder ter um sorriso estampando em meu rosto, mesmo quando a situação não for muito alegre… E que esse meu sorriso consiga transmitir paz para os que estiverem ao meu redor.
Quero poder fechar meus olhos e imaginar alguém… E poder ter a absoluta certeza de que esse alguém também pensa em mim quando fecha os olhos, que faço falta quando não estou por perto.
Queria ter a certeza de que apesar de minhas renúncias e loucuras, alguém me valoriza pelo que sou, não pelo que tenho… Que me veja como um ser humano completo, que abusa demais dos bons sentimentos que a vida lhe proporciona, que dê valor ao que realmente importa, que é meu sentimento… e não brinque com ele. E que esse alguém me peça para que eu nunca mude, para que eu nunca cresça, para que eu seja sempre eu mesmo. Não quero brigar com o mundo, mas se um dia isso acontecer, quero ter forças suficientes para mostrar a ele que o amor existe…
Que ele é superior ao ódio e ao rancor, e que não existe vitória sem humildade e paz.
Quero poder acreditar que mesmo se hoje eu fracassar, amanhã será outro dia, e se eu não desistir dos meus sonhos e propósitos, talvez obterei êxito e serei plenamente feliz.
Que eu nunca deixe minha esperança ser abalada por palavras pessimistas… Que a esperança nunca me pareça um “não” que a gente teima em maquiá-lo de verde e entendê-lo como “sim”.
Quero poder ter a liberdade de dizer o que sinto a uma pessoa, de poder dizer a alguém o quanto ele é especial e importante pra mim, sem ter de me preocupar com terceiros… Sem correr o risco de ferir uma ou mais pessoas com esse sentimento.
Quero, um dia, poder dizer às pessoas que nada foi em vão… Que o amor existe, que vale a pena se doar às amizades e às pessoas, que a vida é bela sim, e que eu sempre dei o melhor de mim…
e que valeu a pena.

Mário Quintana

Desencanto

Eu faço versos como quem chora
De desalento... de desencanto...
Fecha o meu livro, se por agora
Não tens motivo nenhum de pranto.

Meu verso é sangue. Volúpia ardente...
Tristeza esparsa... remorso vão...
Dói-me nas veias. Amargo e quente,
Cai, gota a gota, do coração.

E nestes versos de angústia rouca
Assim dos lábios a vida corre,
deixando um acre sabor na boca.

- Eu faço versos como quem morre.


Manuel Carneiro de Souza Bandeira Filho

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

No Turbilhão

No meu sonho desfilam as visões,
Espectros dos meus próprios pensamentos,
Como um bando levado pelos ventos,
Arrebatado em vastos turbilhões...

N'uma espiral, de estranhas contorsões,
E d'onde saem gritos e lamentos,
Vejo-os passar, em grupos nevoentos,
Distingo-lhes, a espaços, as feições...

— Fantasmas de mim mesmo e da minha alma,
Que me fitais com formidável calma,
Levados na onda turva do escarcéu,

Quem sois vós, meus irmãos e meus algozes?
Quem sois, visões misérrimas e atrozes?
Ai de mim! ai de mim! e quem sou eu?!...

Antero de Quental

Fanatismo

Minh'alma, de sonhar-te, anda perdida
Meus olhos andam cegos de te ver!
Não és sequer razão de meu viver,
Pois que tu és já toda a minha vida!

Não vejo nada assim enlouquecida...
Passo no mundo, meu Amor, a ler
No misterioso livro do teu ser
A mesma história tantas vezes lida!

Tudo no mundo é frágil, tudo passa..."
Quando me dizem isto, toda a graça
Duma boca divina fala em mim!

E, olhos postos em ti, vivo de rastros:
"Ah! Podem voar mundos, morrer astros,
Que tu és como Deus: princípio e fim!...

Florbela Espanca

CRIME

Ilustrado senhor, ficai ciente
de um crime cometido há poucos anos:
Meu triste coração, um pobre doente,
que da vida provara os desenganos,

foi um dia ferido mortalmente
por dois olhos perversos, dois tiranos,
que vivem até hoje, impunemente
soltos, causando os mais atrozes danos.

O suplicante, que é o advogado
da vítima, e, portanto, interessado
nesse processo que um mistério exprime,

em nome da Justiça, pede, humilde.
mandeis prender os olhos de Matilde,
que são autores do nefando crime.

ASSUNÇÃO FILHO (João de Queiroz Assunção Filho)

Noite de saudade


A noite vem pousando devagar
Sobre a terra que inunda de amargura…
E nem sequer a bênção do luar
A quis tornar divinamente pura…

Ninguém vem atrás dela a acompanhar
A sua dor que é cheia de tortura…
E eu ouço a noite a soluçar!
E eu ouço soluçar a noite escura!

Por que é assim tão ´scura, assim tão triste?!
É que, talvez, ó noite, em ti existe
Uma saudade igual à que eu contenho!

Saudade que eu nem sei donde me vem…
Talvez de ti, ó noite!… Ou de ninguém!…

Que eu nunca sei quem sou, nem o que tenho!

Florbela Espanca