SC Joias Finas

SC Joias Finas
Visite nossa fabrica. Grupo SC Brasil

domingo, 16 de janeiro de 2011

Versos Íntimos

Vês! Ninguém assistiu ao formidável
Enterro de tua última quimera.
Somente a Ingratidão - esta pantera -
Foi tua companheira inseparável!

Acostuma-te à lama que te espera!
O Homem, que, nesta terra miserável,
Mora, entre feras, sente inevitável
Necessidade de também ser fera.

Toma um fósforo. Acende teu cigarro!
O beijo, amigo, é a véspera do escarro,
A mão que afaga é a mesma que apedreja.

Se a alguém causa inda pena a tua chaga,
Apedreja essa mão vil que te afaga,
Escarra nessa boca que te beija!

Augusto dos Anjos

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

Fábula dos Dois Leões

Diz que eram dois leões que fugiram do Jardim Zoológico. Na hora da fuga cada um tomou um rumo, para despistar os perseguidores. Um dos leões foi para as matas da Tijuca e outro foi para o centro da cidade. Procuraram os leões de todo jeito mas ninguém encontrou. Tinham sumido, que nem o leite.
Vai daí, depois de uma semana, para surpresa geral, o leão que voltou foi justamente o que fugira para as matas da Tijuca. Voltou magro, faminto e alquebrado. Foi preciso pedir a um deputado do PTB que arranjasse vaga para ele no Jardim Zoológico outra vez, porque ninguém via vantagem em reintegrar um leão tão carcomido assim. E, como deputado do PTB arranja sempre colocação para quem não interessa colocar, o leão foi reconduzido à sua jaula.
Passaram-se oito meses e ninguém mais se lembrava do leão que fugira para o centro da cidade quando, lá um dia, o bruto foi recapturado. Voltou para o Jardim Zoológico gordo, sadio, vendendo saúde. Apresentava aquele ar próspero do Augusto Frederico Schmidt que, para certas coisas, também é leão.
Mal ficaram juntos de novo, o leão que fugira para as florestas da Tijuca disse pro coleguinha: — Puxa, rapaz, como é que você conseguiu ficar na cidade esse tempo todo e ainda voltar com essa saúde? Eu, que fugi para as matas da Tijuca, tive que pedir arreglo, porque quase não encontrava o que comer, como é então que você... vá, diz como foi.
O outro leão então explicou: — Eu meti os peitos e fui me esconder numa repartição pública. Cada dia eu comia um funcionário e ninguém dava por falta dele.
— E por que voltou pra cá? Tinham acabado os funcionários?
— Nada disso. O que não acaba no Brasil é funcionário público. É que eu cometi um erro gravíssimo. Comi o diretor, idem um chefe de seção, funcionários diversos, ninguém dava por falta. No dia em que eu comi o cara que servia o cafezinho... me apanharam.

Stanislaw Ponte Preta (Sérgio Porto)

Sonetos

Entre as partes do todo a melhor parte
Foi a parte, em que Deus pôs o amor todo
Se na parte do peito o quis pôr todo,
O peito foi do todo a melhor parte

Parta-se pois de Deus o corpo em parte,
Que a parte, em que Deus fiou o amor todo
Por mais partes, que façam deste todo,
De todo fica intacta essa só parte.

O peito já foi parte entre as do todo,
Que tudo mais rasgaram parte a parte;
Hoje partem-se as partes deste todo:

Sem que do peito todo rasguem parte,
Que lá quis dar por partes o amor todo,
E agora o quis dar todo nesta parte.

Gregório de Matos

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

Ontem ao Luar

Ontem ao luar, nós dois em plena solidão Tu me perguntaste o que era a dor de uma paixão. Nada respondi, calmo assim fiquei, mas fitando o azul do azul do céu a lua azul eu te mostrei.

Mostrando a ti, dos olhos meus correr senti uma nívea lágrima e assim te respondi.Fiquei a sorrir por ter o prazer de ver a lágrima dos olhos a sofrer.

A dor da paixão não tem explicação.Como definir o que só sei sentir? É misterioso sofrer, para se saber o que no peito o coração não quer dizer.

Pergunta ao luar, travesso e tão tafu,de noite a chorar na onda toda azul, pergunta ao luar, do mar à canção qual o mistério que há na dor de uma paixão.

Se tu desejas saber o que é o amor e sentir o seu calor, o amaríssimo travor do seu dulçor, sobe o monte à beira mar, ao luar, ouve a onda sobre a areia lacrimar, ouve o silêncio a falar na solidão do calado coração a penar e a derramar os prantos seus, ouve o choro perenal, a dor silente universal

Que é a dor maior... que é a dor de Deus...
Que é a dor maior... que é a dor de Deus...

Catulo da Paixão Cearense

Também já fui brasileiro

Eu também já fui brasileiro
moreno como vocês.
Ponteei viola, guiei forde
e aprendi na mesa dos bares
que o nacionalismo é uma virtude.
Mas há uma hora em que os bares se fecham
e todas as virtudes se negam.

Eu também já fui poeta.
Bastava olhar para mulher,
pensava logo nas estrelas
e outros substantivos celestes.
Mas eram tantas, o céu tamanho,
minha poesia perturbou-se.

Eu também já tive meu ritmo.
Fazia isso, dizia aquilo.
E meus amigos me queriam,
meus inimigos me odiavam.
Eu irônico deslizava
satisfeito de ter meu ritmo.
Mas acabei confundindo tudo.
Hoje não deslizo mais não,
não sou irônico mais não,
não tenho ritmo mais não.

Carlos Drummond de Andrade

O mês presente

Sinto que o mês presente me assassina, as aves atuais nasceram mudas e o tempo na verdade tem domínio sobre homens nus ao sul das luas curvas.

Sinto que o mês presente me assassina, corro despido atrás de um cristo preso, cavalheiro gentil que me abomina e atrai-me ao despudor da luz esquerda ao beco de agonia onde me espreita a morte espacial que me ilumina.

Sinto que o mês presente me assassina e o temporal ladrão rouba-me as fêmeas de apóstolos marujos que me arrastam ao longo da corrente onde blasfemas gaivotas provam peixes de milagre.

Sinto que o mês presente me assassina, há luto nas rosáceas desta aurora, há sinos de ironia em cada hora (Na libra escorpiões pesam-me a sina) há panos de imprimir a dura face à força de suor, de sangue e chaga.

Sinto que o mês presente me assassina, os derradeiros astros nascem tortos e o tempo na verdade tem domínio sobre o morto que enterra os próprios mortos.

O tempo na verdade tem domínio. Amen, Amen vos digo, tem domínio e ri do que desfere verbos, dardos de falso eterno que retornam para assassinar-nos num mês assassino.

Mário Faustino

Os sons de antigamente

Conta-se na família que, quando meu pai comprou a nossa casa de Cachoeiro, esse relógio já estava na parede da sala; e que o vendedor o deixou lá, porque naquele tempo não ficava bem levar.
Hoje, meu Deus, carregam até uma lâmpada de 60 velas, até o bocal da lâmpada, e deixam aquele fio solto no ar.
Há poucas anos trouxe o relógio para minha casa de Ipanema. Mais velho do que eu, não é de admirar que ele tresande um pouco. Há uma corda para fazer andar os ponteiros, outra para fazer bater as horas. A primeira é forte, e faz o relógio se adiantar: de vez em quando alguém me chama a atenção, dizendo que o relógio está adiantado quinze ou vinte, minutos, e eu digo que é a hora de Cachoeiro. Em matéria de som vamos muito mais adiante. É comum o relógio marcar, digamos, duas e meia, e bater solenemente nove horas. "Esse relógio não diz coisa com coisa", comenta um, amigo severo. Explico que é uma pequena disfunção audiovisual.
Na verdade essa defasagem não me aborrece nada; há muito desanimei de querer as coisas deste mundo todas certinhas, e prefiro deixar que o velho relógio badale a seu bel-prazer. Sua batida e suave, como costumam ser a desses Ansonias antigos; e esse som me carrega para as noites mais antigas da infância. As vezes tenha a ilusão de ouvir, no fundo, o murmúrio distante e querido do Itapemirim.
Que outros sons me chegam da infância? Um cacarejar sonolento de galinhas numa tarde de verão; um canto de cambaxirra, o ranger e o baque de uma porteira na fazenda, um tropel de cavalos que vinha vindo e depois ia indo no fundo da noite. E o som distante dos bailes do Centro Operária, com um trombone de vara ou um pistom perdidos na madrugada.
Sim, sou um amante da música, ainda que desprezado e infeliz. Sou desafinado, desentoado, um amigo diz que tenho orelha de pau. Outro dia fiquei perplexo ouvindo uma discussão de jovens sobre um som que eu achava perfeito e eles acusavam de flutter, wow, rumble, hiss e outros males estranhos.
Meu amigo Mario Cabral dizia que queria morrer ouvindo Jesus, Alegria dos Homens; nunca soube se lhe fizeram a vontade. A mim, um lento ranger de porteira e seu baque final, como na fazenda do Frade, já me bastam. Ou então a batida desse velho relógio, que marcou a morte de meu pai e, vinte anos depois, a de minha mãe; e que eu morra às quatro e quarenta toda manhã, com ele marcando cinco e batendo onze, não faz mal; até é capaz de me cair bem.

Rubem Braga

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

A borboleta

Trazendo uma borboleta,volta Alfredo para casa.
Como é linda! é toda preta,com listas douradas na asa.
Tonta, nas mãos de criança,batendo as asas, num susto,
Quer fugir, porfia, cansa,e treme, e respira a custo.

Contente, o menino grita:“É a primeira que apanho,
Mamãe!vê como é bonita! Que cores e que tamanho!
Como voava no mato!Vou sem demora pregá-la
Por baixo do meu retrato,numa parede da sala.”

Mas a mamãe, com carinho,Lhe diz: “Que mal te fazia,
Meu filho, esse animazinho,que livre e alegre vivia?
Solta essa pobre coitada!larga-lhe as asas, Alfredo!
Vê como treme assustada... Vê como treme de medo...

Para sem pena espetá-la numa parede, menino,
É necessário matá-la: Queres ser um assassino?”
Pensa Alfredo... E, de repente,solta a borboleta... E ela
Abre as asas livremente, e foge pela janela.

“Assim, meu filho! perdeste a borboleta dourada,
Porém na estima crescente de tua mãe adorada...
Que cada um cumpra a sorte das mãos de Deus recebida:
Pois só pode dar a Morte aquele que dá a Vida.”


Olavo Bilac

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

Certezas

Não quero alguém que morra de amor por mim…
Só preciso de alguém que viva por mim, que queira estar junto de mim, me abraçando.
Não exijo que esse alguém me ame como eu o amo, quero apenas que me ame, não me importando com que intensidade.
Não tenho a pretensão de que todas as pessoas que gosto, gostem de mim…
Nem que eu faça a falta que elas me fazem, o importante pra mim é saber que eu, em algum momento, fui insubstituível… E que esse momento será inesquecível..
Só quero que meu sentimento seja valorizado. Quero sempre poder ter um sorriso estampando em meu rosto, mesmo quando a situação não for muito alegre… E que esse meu sorriso consiga transmitir paz para os que estiverem ao meu redor.
Quero poder fechar meus olhos e imaginar alguém… E poder ter a absoluta certeza de que esse alguém também pensa em mim quando fecha os olhos, que faço falta quando não estou por perto.
Queria ter a certeza de que apesar de minhas renúncias e loucuras, alguém me valoriza pelo que sou, não pelo que tenho… Que me veja como um ser humano completo, que abusa demais dos bons sentimentos que a vida lhe proporciona, que dê valor ao que realmente importa, que é meu sentimento… e não brinque com ele. E que esse alguém me peça para que eu nunca mude, para que eu nunca cresça, para que eu seja sempre eu mesmo. Não quero brigar com o mundo, mas se um dia isso acontecer, quero ter forças suficientes para mostrar a ele que o amor existe…
Que ele é superior ao ódio e ao rancor, e que não existe vitória sem humildade e paz.
Quero poder acreditar que mesmo se hoje eu fracassar, amanhã será outro dia, e se eu não desistir dos meus sonhos e propósitos, talvez obterei êxito e serei plenamente feliz.
Que eu nunca deixe minha esperança ser abalada por palavras pessimistas… Que a esperança nunca me pareça um “não” que a gente teima em maquiá-lo de verde e entendê-lo como “sim”.
Quero poder ter a liberdade de dizer o que sinto a uma pessoa, de poder dizer a alguém o quanto ele é especial e importante pra mim, sem ter de me preocupar com terceiros… Sem correr o risco de ferir uma ou mais pessoas com esse sentimento.
Quero, um dia, poder dizer às pessoas que nada foi em vão… Que o amor existe, que vale a pena se doar às amizades e às pessoas, que a vida é bela sim, e que eu sempre dei o melhor de mim…
e que valeu a pena.

Mário Quintana

Desencanto

Eu faço versos como quem chora
De desalento... de desencanto...
Fecha o meu livro, se por agora
Não tens motivo nenhum de pranto.

Meu verso é sangue. Volúpia ardente...
Tristeza esparsa... remorso vão...
Dói-me nas veias. Amargo e quente,
Cai, gota a gota, do coração.

E nestes versos de angústia rouca
Assim dos lábios a vida corre,
deixando um acre sabor na boca.

- Eu faço versos como quem morre.


Manuel Carneiro de Souza Bandeira Filho

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

No Turbilhão

No meu sonho desfilam as visões,
Espectros dos meus próprios pensamentos,
Como um bando levado pelos ventos,
Arrebatado em vastos turbilhões...

N'uma espiral, de estranhas contorsões,
E d'onde saem gritos e lamentos,
Vejo-os passar, em grupos nevoentos,
Distingo-lhes, a espaços, as feições...

— Fantasmas de mim mesmo e da minha alma,
Que me fitais com formidável calma,
Levados na onda turva do escarcéu,

Quem sois vós, meus irmãos e meus algozes?
Quem sois, visões misérrimas e atrozes?
Ai de mim! ai de mim! e quem sou eu?!...

Antero de Quental

Fanatismo

Minh'alma, de sonhar-te, anda perdida
Meus olhos andam cegos de te ver!
Não és sequer razão de meu viver,
Pois que tu és já toda a minha vida!

Não vejo nada assim enlouquecida...
Passo no mundo, meu Amor, a ler
No misterioso livro do teu ser
A mesma história tantas vezes lida!

Tudo no mundo é frágil, tudo passa..."
Quando me dizem isto, toda a graça
Duma boca divina fala em mim!

E, olhos postos em ti, vivo de rastros:
"Ah! Podem voar mundos, morrer astros,
Que tu és como Deus: princípio e fim!...

Florbela Espanca

CRIME

Ilustrado senhor, ficai ciente
de um crime cometido há poucos anos:
Meu triste coração, um pobre doente,
que da vida provara os desenganos,

foi um dia ferido mortalmente
por dois olhos perversos, dois tiranos,
que vivem até hoje, impunemente
soltos, causando os mais atrozes danos.

O suplicante, que é o advogado
da vítima, e, portanto, interessado
nesse processo que um mistério exprime,

em nome da Justiça, pede, humilde.
mandeis prender os olhos de Matilde,
que são autores do nefando crime.

ASSUNÇÃO FILHO (João de Queiroz Assunção Filho)

Noite de saudade


A noite vem pousando devagar
Sobre a terra que inunda de amargura…
E nem sequer a bênção do luar
A quis tornar divinamente pura…

Ninguém vem atrás dela a acompanhar
A sua dor que é cheia de tortura…
E eu ouço a noite a soluçar!
E eu ouço soluçar a noite escura!

Por que é assim tão ´scura, assim tão triste?!
É que, talvez, ó noite, em ti existe
Uma saudade igual à que eu contenho!

Saudade que eu nem sei donde me vem…
Talvez de ti, ó noite!… Ou de ninguém!…

Que eu nunca sei quem sou, nem o que tenho!

Florbela Espanca