SC Joias Finas

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quinta-feira, 26 de maio de 2016

Escárnio Perfumado


Quando no enleio
De receber umas notícias tuas,
Vou-me ao correio,
Que é lá no fim da mais cruel das ruas,
Vendo tão fartas,
D’uma fartura que ninguém colige,
As mãos dos outros, de jornais e cartas
E as minhas, nuas – isso dói, me aflige…
E em tom de mofa,
Julgo que tudo me escarnece, apoda,
Ri, me apostrofa,
Pois fico só e cabisbaixo, inerme,
A noite andar-me na cabeça, em roda,
Mais humilhado que um mendigo, um verme…
Cruz e Sousa )

domingo, 22 de maio de 2016

No meio do caminho

No meio do caminho tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
tinha uma pedra
no meio do caminho tinha uma pedra.
Nunca me esquecerei desse acontecimento
na vida de minhas retinas tão fatigadas.
Nunca me esquecerei que no meio do caminho
tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
no meio do caminho tinha uma pedra.
Carlos Drummond de Andrade )

sábado, 7 de maio de 2016

Colunas - A Luiz Carlos

Fiz ontem (com que pesar!)
cinquenta e sete janeiros!
Os anos passam ligeiros!
Mas isso é coisa vulgar.

Nós todos nos enganamos:
pois o tempo, (eis a desgraça!)
não existindo, não passa... 
e somos nós que passamos!

Mas o tempo, (eis a verdade)
que tudo põe em ruínas,
só não tem garras ferinas
para matar a Saudade.

Pois foi com ela, a Saudade, 
que ontem, dentro do meu ninho, 
passei o dia inteirinho,
o dia todo a cantar.
E como faz bem ao peito,
ressuscitando o desfeito,
num velho “pinho” chorar!

Assim, cantando, gorjeando, 
é que vamos evocando
os que lá foram “viajando” 
para eternos jubileus!
E nós, os bardos, sabemos
que no mundo onde vivemos, 
quem canta fala de extremos
com uma Saudade ou com Deus!

O mundo é uma songa-monga! —
Tendo a vida curta ou longa,
gritarei, como a araponga, 
os gritos da minha dor.
Foi para isso, somente,
que Deus, cruel e clemente,
deu-me este horrendo presente
de me fazer trovador.

Ora, adeus!... A vida é esta!
A solidão é uma festa,
quando à nossa alma inda resta
a solidão do Ideal!
Pois no dia dos meus anos,
distante de olhos profanos, 
e de tudo que é mortal,
sem visitas importunas,
com as cordas d’alma vibrando,
passei o dia sonhando,
a conversar com as COLUNAS
do seu livro divinal,
essas COLUNAS gigantes 
de pedra filosofal.

Afirmem sábios doutores
que de alabastro são feitas
essas COLUNAS perfeitas,
com os seus plintos de amargores
e os fustes, que são de dores,
e os capitéis de oração,
porque eu, que tanjo uma lira, 
direi aos sábios: mentira!... 
É uma completa heresia!... 
É uma completa ilusão!... 
Porque. a pedra é coisa fria,
insensível e concreta,
e o seu livro, excelso poeta, 
é a chorosa Eucaristia
da sua melancolia, 
é a Poesia em contrição,
é a dor da Filosofia,
rugindo uma Ave-Maria
pela boca de um vulcão.

Essas COLUMNAS de glórias
serão Colunas marmóreas,
mas dos mármores das lágrimas 
do seu grande coração.


Catulo da Paixão Cearense